Terça-feira, Dezembro 29, 2009

O Poder (mágico) do Modelo na Educação


in Jornal Asemana, 27.11.09, p.26
Os progressos obtidos por meio do ensino são lentos; já os obtidos por meio de exemplos são mais imediatos e eficazes.
Séneca


Todos admiramos alguém que gostaríamos de seguir ou mesmo de imitar, mas as consequências desta escolha acertada ou errada extravasam os indivíduos, impondo à sociedade o dever de pagar as suas facturas dado que os bons ou maus modelos contribuem para a formação da riqueza e da pobreza das nações.

A educação, mais concretamente a aprendizagem dos valores, acontece em qualquer lugar, em qualquer época e em qualquer hora. Tal como o ser humano, a aprendizagem é, também, intemporal, eterna.

Porém, o problema reside sempre no tipo de modelo ou referencial pretendido quanto mais não fosse por que a educação é a chave para a transformação social e espera-se que ela seja sempre benéfica para o bem comum. Derivado desta intenção legítima, achamos importante promover a presente reflexão sobre o poder mágico dos modelos, discutindo as consequências da (in)acção para a vida de cada um de nós, em particular, a par das que, de uma forma ou de outra, afectam o país inteiro.

O modelo é algo que influencia a forma como olhamos e interagimos com o mundo que nos envolve, ou seja, determina o modo como predispusemos a pensar e a agir numa dada altura da vida. Assim sendo, raros são os homens que não se deixaram guiar por um determinado modelo. O conceito em apreço foi introduzido por Albert Bandura, psicólogo e educador canadiano, no vocabulário educacional, definindo-se, hoje, como uma das teorias charneiras no campo das teorias de aprendizagem.

A discussão dos modelos afigura-se importante em Cabo Verde como em qualquer parte da aldeia global, uma vez que o florescimento dos meios de comunicação de massa aumentou, significativamente, o número de pessoas que, a cada dia, interagem connosco, deixando, ainda que inconscientemente, alguma marca na nossa vida.

Porém, mesmo fora do mundo televisivo e da Internet, recebemos, quotidianamente, diversos tipos de influências, cuja aceitação ou repulsa ilustram o nosso grau de maturação ética e intelectual. Consequentemente, as crianças e os adolescentes, por estarem em fase de estruturação da personalidade e da definição da identidade, são os mais propensos a identificarem modelos reais e/ou imaginários capazes de darem asas aos seus “sonhos” e de colorirem as suas fantasias.

Na sociedade em que vivemos, o problema da modelação comportamental deve ocupar uma centralidade acrescida como forma de remediar a situação social actual que requer uma vigilância cuidada e um tratamento proporcional. A justificar esta orientação, o novo pastor da Igreja Católica em Cabo Verde, em entrevista ao Programa 1º Plano, da TCV, reiterou que a família cabo-verdiana encontra-se doente.

Uma análise, ainda que ligeira dessa confissão, acusa um diagnóstico preocupante. Se não, vejamos: regista-se um crescimento exponencial de famílias monoparentais, ou seja, de famílias geridas apenas por um dos progenitores, pai ou mãe, quase sempre; o aumento cada vez mais preocupante de avós que cuidam dos netos como se fossem filhos, devido à ausência física e, na maior parte das vezes, financeira dos progenitores; a situação dos filhos que dormem na expectativa de saberem se o pai vai dormir em casa; o aumento do número de crianças que crescem em lares onde nem o pai nem a mãe praticam algum tipo de culto religioso; o incremento do número de crianças que são educadas sem nenhuma formação espiritual/religiosa; a existência de um número significativo de famílias que valorizam a riqueza sem esforço em detrimento do trabalho árduo e honesto, sem esquecer aqueles que, de forma clara ou encoberta, se refugiam no consumo e/ou no negócio de produtos ilícitos, entre outros males.

As situações ora referidas funcionam como combustão, sobretudo, na educação das crianças e adolescentes. Sem a pretensão de sermos deterministas e acharmos que a gravidade dos factos gera forçosamente consequências ainda mais gravosas, apostamos simplesmente no possibilismo dado que a capacidade de resiliência de certos indivíduos nos alivie um pouco. Segundo o frisado conceito, o filho de um alcoólatra – apesar da pressão familiar - nem sempre é um potencial alcoólatra, pois ele pode dar a volta por cima, tendo, por exemplo, como modelo alguém que não use ou abuse do álcool.

Por outras palavras, é certo que numa família desestruturada nem todos os seus rebentos são forçosamente desestruturados, mas perder ainda que fosse um único elemento é, para nós, como se fosse perda total. Daí nasceu a causa da nossa preocupação para que ninguém se perca. Assim, como pais, tios, irmãos, vizinhos, padrinhos, madrinhas e amigos chegados sempre podemos, através da Pedagogia do Exemplo, influenciar positivamente quem convive connosco, pois é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, diz um sábio provérbio africano.

Parece-nos, por isso, evidente que as abordagens parcelares, ainda que bem-intencionadas para combater os modelos negativos ou as influências nefastas na família, em particular, e na sociedade, em geral, tendem a pecar pela solidão. O desejável seria a criação de um pacto de regime, o que nem sempre possível. Vejamos um exemplo: a escola, face aos comportamentos disruptivos dos alunos seja de indisciplina, violência ou até mesmo da irreverência, culpabiliza os pais por não terem dado “boa educação” aos filhos ou, então, por não terem sido bons modelos para eles; os pais, por seu turno, questionam o papel dos professores, achando que deviam fazer o que não foi feito em casa, isto é, reparar os erros causados. Concluindo, as partes, ao não se acertarem, cada um estará a cavar, sem saber, a sua própria sepultura e lavando, depois, as mãos como fizera Pilatos.

Todavia, os erros nem sempre são reparados e, por consequência, certas decisões tomadas pela escola (nomeadamente a expulsão dos alunos) cria um ciclo vicioso quando se reconhece que faltam estruturas sociais de apoio capazes de oferecerem uma segunda oportunidade a quem foi expulso e/ou abandonou, ainda por opção, a escola. Aqui, segundo o pacto acima frisado, faria todo o sentido manter o aluno na escola em vez de o culpabilizar por não ter norte quando qualquer ponto da bússola o serviria como sinal de (des)orientação.

Na verdade, o seu desnorte pode estar associado à ausência de modelos acertados e/ou à presença de modelos nefastos no meio onde vive, a par de uma perspectiva temporal de futuro muito curta, segundo o professor Joseph Nuttin, da Universidade de Lovain (Bélgica).

O importante a reter quando se disseca a temática dos modelos na educação é a consciencialização de que, por vezes, somos mais determinantes do que realmente pensamos na estruturação da personalidade das pessoas que interagem connosco. Esta verdade traduz-se, em igual proporção, numa maior responsabilização individual e colectiva dos nossos actos e, consequentemente, a escolha entre ser um bom ou um mau modelo pré-anuncia o futuro do nosso bairro, da nossa cidade ou do nosso país e, sobretudo, do pilar de qualquer sociedade: a família. Enfim, dos bons ou mais modelos por cá existentes se constrói a riqueza e/ou a pobreza (material e moral) da nossa nação.

Albino Luciano Silva

Mestre em Educação (esp. Administração e Organização Escolar) e Pós-graduado em Gestão e Avaliação da Formação.
E-mail: s_albino21@hotmail.com; Blog: edukamedia, disponível em www.edukamedia.blogspot.com

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Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Boas Festas

A ti caro leitor ou visitante deste espaço, não queria fechar o computador e dar por findo o dia de trabalho sem antes desejar, de forma profunda, os meus votos de boas festas. Enalteço que natal é um momento de partilha e, por isso, as pequenas insignificâncias de que falam os poetas têm agora muito sentido. os presentes ainda que pequenos valem ouro, diamante quando na sua base está a amizade sincera e o espírito de partilha.

Boa consoada a todos.

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Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Canhotos são mais rápidos no desporto

Diário de Notícas, 13.08.09
Eram contrariados com reguadas, mas hoje já não são discriminados. Em algumas actividades, como as desportivas, até pensam mais rapidamente que os destros, dizem alguns estudos

Fazem tudo à esquerda e nalgumas tarefas, como a condução, as actividades desportivas ou os jogos de computador, até pensam mais rapidamente que os destros, asseguram alguns estudos científicos. Houve um tempo, no entanto, em que os canhotos, que são cerca de dez por cento da população em Portugal, eram contrariados na escola, com castigos e reguadas. Hoje já não é assim, mas há quem se queixe de que a sociedade ainda se esquece deles nas pequenas coisas do dia-a-dia.
Manuel Coelho dos Santos, que em 2001 editou um livro sobre o direito de ser canhoto e que em 1988 abriu a primeira loja em Lisboa com produtos para eles, é uma das pessoas que dizem que a sociedade portuguesa ainda não facilita a vida aos esquerdinos.
Quando abriu a loja, que acabou por encerrar em 1993, chegou a ser insultado. "As pessoas tinham vergonha de frequentar a loja, até parecia que estava a vender produtos pornográficos", contou à Lusa.
Coelho dos Santos diz que se bateu para que o Estado, através do ministério da Educação, desse às crianças canhotas condições semelhantes às destras. Mas nada mudou, garante. "Pensei que ia acontecer um milagre, mas não. Hoje centenas de crianças ingressam nos primeiros anos de escolaridade sem ter material escolar adequado", lamenta.
Por isso, sublinha, os canhotos, estigmatizados durante anos, continuam a ter as mesmas dificuldades, o mundo continua a ser todo pensado para os destros e no mercado há poucos materiais para quem é canhoto. Uma situação que contrasta por exemplo com a do Reino Unido, Estados Unidos ou Alemanha, onde, garante, existem preocupações com esta faixa da população, em especial com as crianças e com as suas aprendizagens escolares.
Apesar de tudo, os canhotos acabam por habituar-se a um mundo que não está feito para eles. Marta Cruz, 33 anos, bancária, é um exemplo. "Acabei por me habituar", afirmou à Lusa, garantindo que nunca se sentiu discriminada. A sua geração já não foi contrariada. E hoje já há materiais adaptados, como tesouras, mas chegar a eles é que ainda não é fácil. Muitas vezes a Internet é a solução.

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Terça-feira, Julho 14, 2009

Do Estado Provedor ao Estado Avaliador

A Regulação da Educação e a Defesa da Escola Pública (II)
In Jornal Asemana, 10 de Julho de 2009

A regulação, como acto de ajustamento da acção educativa a uma finalidade predeterminada, obriga a um compromisso com a transparência da acção dos agentes educativos e a uma vigilância apertada dos produtos gerados. Nas escolas, urge começar um debate interno sobre a prestação pública de contas enquanto a sociedade deve debruçar-se sobre a ética da gestão.

As teorias de regulação ganham, cada vez mais, relevância em virtude do esgotamento do modelo neo-liberal, onde os agentes económicos tinham, por dever atribuído, a liberdade de actuar e de aplicar a auto-regulação, a bem de um “mercado funcional”. Todavia, a História, pela presente crise global, veio provar o contrário e o preço é pago por todos, de forma directa ou indirecta, com ou sem culpa formal.

No sector da educação, a realidade não é, de si, distante dado que, por detrás das grandes instituições educativas (sublinho grandes em termos de volumes de negócios), existem grupos económicos enroupados por cooperativas de ensino, cujas lógicas mercantis pouco diferem das especulações e cotações bolsistas.

A ideia de regulação num mercado selvagem não granja seguidores, quando, no sector público, não existe, em contrapartida, uma prática que, por si só, sirva de contrapeso ao próprio sector privado. Neste sentido, a escola pública, enquanto instituição, deve merecer a confiança e o investimento do Estado para servir de tampão e de modelo às outras organizações educativas, cujo lucro é o seu primeiro e último desígnio.

Retomando a ideia expressa no artigo anterior (Jornal “A Semana”, edição de 05 de Junho de 2009), as autoridades educativas, para cumprirem o seu papel, têm que assegurar que o modelo pedagógico praticado pelas instituições de ensino privado satisfaça às prioridades e interesses do país.

Sendo a escola o espelho de uma Nação e (re)produtora social por excelência, qualquer desencontro de expectativas entre a sociedade e as escolas deve ser, cuidadosamente, acautelado, pelo que se propõe uma perspectiva de análise em torno de uma mudança tão necessária quanto desejável sobre a actuação das estruturas educativas e da sua governança, fazendo jus às suas virtudes, que são inúmeras, mas também aos defeitos assinaláveis.

Como dizem alguns autores consagrados, “se apanhares o comboio [ou o autocarro] na direcção errada, serão erradas todas as paragens por onde passares”. Por este dito, fica sublinhada a necessidade de definição prévia de objectivos para cada subsistemas de ensino, ou seja, a cultura do deixar andar e logo se vê, a cultura do improviso ou do “desenrascanso” incita ao erro por falta de estratégia. Consequentemente, só restaria correr atrás do prejuízo, o que, quanto a nós, constitui um acto de gestão irracional.

Há, por isso, necessidade de criar um forte e sério compromisso com a boa gestão das estruturas educativas e organizações escolares, em particular, sendo essa estratégia não só um acto de racionalidade económica, como também consagraria a visão que se quer transmitir à geração futura.

Esta aposta passa, quanto a nós, por criar uma agenda que, por um lado, propicie a discussão da autonomia das escolas e, por outro, incite a necessidade de uma gestão qualificada das mesmas, sendo certo que as lógicas de confiança e boa fé se afiguram como fulcrais na nossa cultura latina. Mas não é menos verdade que um sistema judicial que funcione (bem) contribuiria grandemente para julgar práticas menos “correctas” na governança escolar, invertendo, assim, o quadro de impunidade.

A justificar esta orientação, uma mudança fundamental no nosso sistema educativo parece ser a solução honestamente reclamada e socialmente desejada. O primeiro passo de uma longa caminhada rumo à mudança profunda seria ter professores científica e humanamente preparados, técnicos e auxiliares educativos comprometidos com o sucesso dos alunos, gestores escolares cientes das suas responsabilidades e convictos das penalizações por uma gestão desastrosa, bem como uma classe política consciente de que, pelo menos, em alguns domínios da administração educativa deve existir um consenso alargado, fruto de uma negociação ou mesmo de um referendum.

Essa mudança não passa ao lado da formalidade nem tão pouco do pessoal e isso porque a pessoa, em si, é a chave do sucesso dos processos transformativos e explica a razão porque tantas reformas ficaram pelas intenções por não terem criado vínculos afectivos.

Voltando ao interior da escola, a ausência de uma visão clara da mesma, associada à mediatização das debilidades que apresenta como parte do sistema geral, como é evidente, gere sentimentos contraditórios: de impotência para os cépticos que, há muito, penduraram a vontade transformativa e uma sede insaciável dos transformadores que se concentram no optimismo da vontade para poderem vencer o pessimismo da razão, sendo este cuidadosamente semeado e regado pelos movimentos anti-mudança.

A escola pública compadecida pelas imagens organizacionais nem sempre reveladoras do seu verdadeiro estado da arte – devido à existência de focagens parcelares, mas preconcebidas – encontra-se exposta à intoxicação da mensagem externa de interesses corporativistas.

Por exemplo, na defesa dos rankings das escolas, em muitos países, fica nítido o discurso minado e manipulado de certos interesses instalados, solicitando a subvenção das mensalidades dos alunos pelo Estado nas escolares particulares, o que leva ao desinvestimento nas do sector público.

Tal prática, levada ao extremo, legitima os discursos neo-liberais de livre escolha da escola e dos vauchers, ficando a pública para os mais humildes o que, a prazo, cria, num extremo, a dita escola para os excluídos do capitalismo e, noutro, a escola para os afortunados, ou seja, para os “novos ricos".

No nosso país, a capacidade de aprender com os erros dos vizinhos, parceiros e, quiçá, dos próprios amigos, revela uma combinação rara entre inteligência e humildade. Aliás, a educação comparada constitui uma ferramenta rica neste processo, embora a investigação apresente um papel pouco relevante nas reformas educativas apressadas.

Ainda assim, uma atitude pró-activa induz os actores públicos a anteverem os problemas e a proporem medidas que contribuam para minimizar o efeito-furacão da passagem, pelo nosso burgo, dos ecos de um sistema económico que desvirtue o conceito de serviço público, de prestação de serviço ao público e do próprio bem público.

Perante a dicotomia de “boas ou más escolas”, consoante o referencial adoptado pelos decisores públicos, a sua escolha depende sempre, em larga medida, daquilo que se quer deixar como herança à geração vindoura. Uma sociedade educativa com a selecção social monitorizada e a escola como o lugar para a prática dos valores da cidadania, da excelência e da competição saudável. Enfim, “um ginásio mental e um campo de recreio da intelectualidade”, onde todos são atletas aptos a venceram, desde que, haja uma base combinada do treino árduo e do fair-play.

Em suma, a defesa da regulação educacional, a par da defesa da qualidade das organizações educativas, é possível no quadro de uma aposta consertada naqueles que, embora desprovidos de recursos, vejam a escola como o veículo para a almejada transformação social.

Albino Luciano Silva
Mestre em Educação (esp. Administração e Organização Escolar) e Pós-graduado em Gestão e Avaliação da Formação
E-mail: s_albino21@hotmail.com; Blog: edukamedia, disponível em www.edukamedia.blogspot.com


Sexta-feira, Junho 05, 2009

Do Estado Provedor ao Estado Avaliador (1)


A Regulação da Educação em Cabo Verde
In Jornal A Semana, Sexta-feira, 05 de Junho de 2009

O tema da regulação em Cabo Verde, por imposição ou sugestão de alguns organismos internacionais, tem ganho peso em alguns sectores e relevância em alguns domínios, assim como herdou problemas conhecidos entre o regulador e o regulado. Contudo, importa suplicar a transferência das conquistas alcançadas nas áreas reguladas para a melhoria do mercado da educação, que é o nosso alfa e ómega. O caminho é, porventura, longo, mas “a viagem longa faz-se de véspera”…

As mudanças globais e aceleradas que marcam o quotidiano de muitas empresas, instituições e alguns Estados obrigaram os agentes sociais a utilizar a regulação como forma de introduzir maior “civilidade” na prestação de serviços ao consumidor. A justificar esta orientação, temas como a regulação económica, a regulação genética, a regulação urbana, a regulação prudencial e a regulação da comunicação social, entre outras, aparecem de forma frequente, quase que diariamente, no espectro mediático.

Em Cabo Verde, tem surgido uma janela de oportunidade para o florescimento da discussão tanto do conceito como do processo, na tentativa de, por um lado, produzir uma moldura processual (legislação) compatível, por exemplo, com a realidade da União Europeia – onde se promove o encontro de expectativas entre os provedores dos serviços e os consumidores – e, por outro, dar sustentabilidade ao patamar alcançado, recentemente, pelo arquipélago: graduação a País de Rendimento Médio.

Entendemos por regulação o acto de regular, ou seja, o modo como se ajusta a acção (mecânica, biológica e social) a determinadas finalidades, traduzidas sob a forma de regras e normas previamente definidas. Neste artigo, a nossa pretensão fica por uma viagem à volta do conceito em apreço com a análise subsequente do processo de regulação do ponto de vista da administração educacional, sem tirar mérito e pertinência a outros olhares e itinerários possíveis de abordagem.

A decisão de certos Estados em deixar de providenciar serviços que antes eram tidos como da sua exclusiva competência como, por exemplo, a educação, a saúde e a segurança social, etc., marcou o fim de um ciclo: do Estado Providência ou do Estado Educador, para ser mais conciso e os mesmos passaram a ser geridos pelo mercado através de acordos de privatização, liberalização e/ou de prestação de tarefa em regime outsourcing.

Esta nova geração de prestação de serviço ao público impõe ao Estado a assunção de uma nova e acrescida responsabilidade: ser um entidade avaliadora – princípio do Estado Avaliador, ou seja, fica incumbido, por inerência de funções, o cuidado de zelar para que as atribuições outorgadas ao mercado, por exemplo, às escolas privadas e cooperativas, sejam cumpridas na íntegra, a par do “poder” de agir, em conformidade, em caso de inobservância dos princípios pré-acordados, sancionando, obviamente, os infractores.

Com efeito, os discursos em torno da regulação são divergentes, sendo de destacar que existem interpretações diversas sobre a regulação conforme a natureza da organização do Estado, Assim, a pré-regulação é perceptível nos sistemas de administração centralizados (onde o Estado ou os seus tentáculos produzem toda a normatividade burocrática que deve ser atendida de forma rígida). Já a multiregulação ou co-regulação, que nós defendemos, por seu turno, está associada aos sistemas descentralizados onde a regulação é feita de forma simultânea e a vários níveis.

Segundo essa lógica, que vai ao encontro das abordagens sistémicas e holísticas, as organizações escolares são vistas como um todo e não como uma área fragmentada do sistema social, onde todas as perspectivas devem ser analisadas de forma eclética, o que, por outras palavras, significa valorizar o que cada olhar tem de melhor para o processo de construção e de compreensão de um modelo regulatório comum fruto de um consenso negociado.

Consequentemente, no domínio da educação e da governação das escolas, em particular, o desenvolvimento de um plano de auto-avaliação permite que as instituições adoptem uma prática de auto-regulação e dêem inputs importantes à entidade reguladora, se bem que, em Cabo Verde, este figurino, ainda, não existe.

Se nos sistemas de governo centralizados, a regulamentação é bastante forte como forma de impor uma norma comum a toda a estrutura educativa, sem a preocupação específica com a qualidade da mesma, nos sistemas descentralizados, a preocupação com a qualidade é uma finalidade que se alcança com fins concretos e exequíveis que passam, claramente, pela regulação deste sector. Neste particular e com o intuito de dissipar possíveis ambiguidades, importa (re)lembrar que a regulamentação enquanto processo de codificação de regras, constitui uma componente específica da regulação e nunca o inverso. Sendo assim, a prática correcta da regulação pressupõe a existência uma estreita ligação com a avaliação institucional que cria o que se designa de auto-regulação.

Pelo que foi dito, torna-se evidente que as organizações que não desenvolvem uma prática de análise interna da sua actividade acabam por não compreender o presente e vislumbram, de forma ofuscada, o seu o futuro, restando-lhe, assim, pouca margem de inovação e progresso, pois, vivem ao sabor dos ventos…

A contrariar esta tendência, a aposta na regulação garante, entre outros proveitos, a regulamentação (produção e institucionalização de normas), a garantia do controlo da qualidade e da eficácia dos serviços prestados, sem contar com um conhecimento profundo da realidade organizacional e da sua consequente governabilidade. No sistema educativo, a aposta certa seria o investimento num sistema de avaliação contínua das escolas, o que se concretizaria através da criação de um sistema de auto-avaliação das organizações educativas, bem como a formulação de uma visão do que o país quer para cada sub-sistema de ensino, com particular incidência para o secundário e o superior.

Albino Luciano Silva
Mestre em Educação (esp. Administração e Organização Escolar) e Pós-graduado em Gestão e Avaliação da Formação
E-mail:
s_albino21@hotmail.com; Blog: edukamedia, disponível em www.edukamedia.blogspot.com

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

Revisitando o Professor Félix Correia

Recordar os nossos professores da escola primária constitui uma viagem emocional à nossa infância. Algo que é indissociável das brincadeiras, das brigas, dos medos, e, sobretudo, da relação que, hoje, mantemos com a escola, tendo em conta a criança (aluno/a) que transportamos dentro de nós. Essa jornada pode ser feita com sorriso, caso o passado deixou saudades, ou com mágoas, se pelo contrário, o mesmo deixou correr lágrimas que o tempo não soube enxugar. Em qualquer dos casos, espera-se um bom momento de psicanálise. São relatos que comovem a qualquer pessoa, quer se trate de alegrias, quer se trate de traumas que, infelizmente, ainda, perseguem quem os testemunhou.
A figura central deste texto, nunca foi à televisão, nunca viajou para fora de Cabo Verde, nunca recebeu um prémio pelo serviço prestado à sua aldeia e, de uma forma mais lata, ao seu concelho e país, mas é um ícone para todos os habitantes da sua aldeia natal, Ribeirão boi (e arredores). Iniciou a sua actividade docente, ensinando a ler e a escrever aos jovens e adultos de Ribeirão boi e Serelho (Concelho de Santa Cruz), gratuitamente.
A experiência adquirida na alfabetização de adultos motivou-o, a candidatar-se ao lugar professor-monitor para poder, assim, leccionar no sistema formal de ensino. Foram registadas, neste sentido, várias tentativas infrutíferas. Contudo, depois de muita insistência, conseguiu o almejado lugar. Ainda assim, alcançado o seu objectivo, depois das aulas com as crianças, proseguia, religiosamente, o contacto com os adultos, na sua maioria, mulheres que nunca foram à escola ou então que a abandonaram, precocemente, sem saber ler e escrever ( por coação dos pais ou, então, para salvarem a pele…
O professor Félix - como é conhecido, além de exímio na arte de ensinar e praticante confesso da tutoria, tinha um sentido de humanidade que o fez granjear respeito entre miúdos e graúdos. Por diversas vezes, tirou, do seu bolso, o dinheiro para nos garantir uma refeição quente (medida legalmente consagrada), quando os géneros do PAM (Programa Alimentar Mundial) se atrasavam. Além disso, vezes sem conta, utilizou a capela da aldeia para nos dar aulas, quando outras alternativas falhavam. Recordo-me de uma época, quarta classe, estar com problemas numa determinada disciplina e durante o intervalo, enquanto os meus colegas brincavam, ele chamava-me ao quadro e certificava, com delicadeza, se eu tinha dominado certos conteúdos e atingido o nível de proficiência para novas aprendizagens. Hoje, relembro o seu gesto como um incentivo para o meu percurso escolar que ele perspectivava longo.
Como qualquer pessoa, o professor Felix também tinha os seus defeitos. Apesar de ter nascido e vivido numa aldeia agrícola nunca se envolveu activamente nos trabalhos campestres. O seu gosto era ensinar e fazia-o com as subtilezas dignas de um mestre.
Félix Correia Duarte desapareceu do mundo dos vivos, mas a sua memória fica para sempre conservada no meu coração e, certamente, da maioria dos seus alunos. Agora, cabe-nos lutar para preservarmos o seu legado.
Para mim, ele foi o nosso verdadeiro Paulo Freire. Dedicou a sua vida a encorajar-nos a ver para além da enxada e da pequenez da nossa aldeia…Queria que perseguíssemos a linha do horizonte.

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Quinta-feira, Abril 16, 2009

O Puto Maravilhas

O Espantoso caso de sobredotação num adolescente que hoje é uma celebridade
"Akrit Jaswal nasceu há 15 anos, numa família pobre Rajput da cidade de Himachal Pradesh, na Índia. Desde pequenino demonstrou habilidades incomuns: começou a falar com 10° mês, aos 2 anos de idade começou a escrever e a ler. Aos 5 anos começou a ler livros de poesia e peças de Shakespeare, depois desenvolveu uma paixão precoce por livros de Medicina, Anatomia e Cirurgia" [Ler mais ASemana]
Para conhecer outras crianças-prodígios navegue no smallwonder na página da Oprah Winfrey

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